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O Papel da Religião nos Nossos Dias

Publication

Site Flavia Virginia

Date

December 3, 2024

בס"ד

As pessoas me perguntam constantemente se a religião tem um papel relevante nos dias de hoje. Citam, justificando sua dúvida, coisas como a ciência, a possibilidade de se levar uma vida moral sem a necessidade de um ser supremo ditando regras, apenas baseado na nossa pura humanidade e desejo intrínseco de fazer o bem; ultimamente têm me falado muito nos últimos avanços tecnológicos, principalmente a inteligência artificial, como sendo um elemento que mudará paradigmas, nos afastando ainda mais da capacidade de aceitar uma série de dogmas criados há muitos séculos, num trecho da história que já em quase nada se assemelha ao nosso.


Outro argumento muito usado é o de que as pessoas precisavam psiquicamente da religião porque não compreendiam a natureza ao seu redor, nem a dominavam. Se depreende daí que essa situação de incompreensão fez com que se criassem coisas como os mitos de criação ou fundadores de uma determinada sociedade, de onde se extraíam explicações de “por quê fazemos assim ou assado”.

A liberdade é outra questão que faz com que algumas dessas pessoas considerem que a religião está se tornando obsoleta. Antigamente se vivia numa sociedade com regras de conduta muito mais rígidas que as que temos hoje, num tecido social mais coeso (ainda que à força) e havia, portanto, menos liberdade para se pensar, falar, agir, ser diferente. Este estado de coisas cerceava, talvez principalmente, o trânsito livre de ideias discrepantes das impostas pela hierarquia social. Por este motivo, quem pensava diferente, caso se manifestasse, era reprimido, ostracizado e inclusive morto.


Mas hoje, não! Temos uma situação muito distinta, onde todos os pontos acima foram reorganizados de outra maneira: conhecemos o bem porque temos acesso à literatura que fala sobre ele, grandes obras de grandes homens que ilustram com precisão e riqueza de detalhes os direitos e os deveres dos seres humanos e, evidentemente, as vantagens de se viver de forma harmônica, ampliando as benesses da civilização para o máximo possível de nós. Claro que ninguém tampouco está dizendo que é desta forma que vivemos; apenas se aponta que conseguimos compreender com facilidade esses conceitos, e inclusive que ninguém os põe em causa, pois o bem da humanidade (ou o bem na humanidade) é a circunstância ideal para todos e mesmo para os seres não-humanos. Não precisamos de Deus e nem de religião para isso: nosso próprio caminhar na Terra nos mostrou o que é o melhor, o que é o pior e, em sã consciência, qualquer um optará pelo melhor, se puder.


Um outro ponto é que a natureza, embora não inteiramente dominada, já é bastante compreendida e não nos causa medo; conhecemos os seus movimentos, podemos prever muitos deles, temos meios de nos organizarmos para conviver com ela de maneira satisfatória. Não creditamos desequilíbrios ou desastres naturais à ira de nenhum deus, sendo muitas vezes apenas nossa própria irresponsabilidade a gerar resultados indesejáveis, e, outras ainda, o inevitável que, entretanto, não nos assusta irracionalmente. O acidente, o desastre e a morte são partes naturais da vida e as religiões tampouco têm o poder de impedi-los.

Por fim, somos de um modo geral livres para pensar, falar, agir e ser como quisermos, mudando de país, de costumes, de nome; nessas mudanças, aprendemos mais sobre formas diferentes de ser e isso nos mostra que nenhuma religião possui uma cartilha completa de respostas, havendo antes acertos aqui e ali. Não há religiões melhores ou piores e os níveis de acerto e erro, de adivinhação e de certeza são os mesmos em todas elas. Podemos nos afiliar a quem quisermos, quando quisermos: jamais teremos 100% de razão.


Ou seja, as religiões são iguais em suas diferenças, distintas em suas semelhanças. Aqui onde estamos, nessa quadra histórica, nenhuma é realmente necessária. Os dogmas religiosos são cada vez mais incompatíveis com a nossa mente científica, racional, aberta. As distâncias tendem a se ampliar e, para estar numa religião hoje, é preciso abdicar pelo menos parcialmente das conquistas da mente, das explicações científicas, dos novos anseios e horizontes que a evolução tecnológica nos promete; das relações democráticas e, até certo ponto, transparentes que conseguimos estabelecer, de certa forma difíceis de se plasmar plenamente no ambiente religioso, que tende sempre ao hierárquico. As estórias da religião podem até soar, perto da grande literatura mundial, infantis ou simplórias, acima de tudo por seus objetivos cordeirizantes, moralizantes, com sua forma dualista de ver o mundo e de dividir os personagens em bons e maus, desobedecendo a regra da vida real, que é a complexidade absoluta a todo momento.


A religião, me dizem essas pessoas, é, em si mesma, incompatível com o que somos e, acima de tudo, com o que queremos ser, que é uma versão aperfeiçoada do ser que aglomera em si as características destacadas acima.


Mas estas pessoas não apenas me dizem isso. Elas me perguntam o que eu acho. Algumas até se espantam de eu fazer uma escolha pela religião e me questionam desde um ponto genuíno de curiosidade e espanto. Então, querem mesmo saber.


Eu falo um pouco sobre esse tema neste vídeo aqui, de mesmo nome que esse texto. Mas vou detalhar um pouco mais meu pensamento por escrito nas próximas semanas.


Estamos diante de um problema circular. Compreender a religião por meio de si própria, a meu ver, é que é o principal responsável por esse entendimento que conclui inequivocamente pela sua obsolescência. A religião, vista pelos seus próprios olhos, teria necessariamente que se tornar obsoleta quando mudassem as condições daquilo que ela parece tratar . Então, munidos de um sentimento de progresso, de avanço, de evolução, a religião perderia seu lugar, porque estes não se encontram nela. Antes, a religião costuma ser o locus onde as coisas podem permanecer o que sempre foram, ou quase iguais a isto – sendo este um de seus principais atrativos, aliás. Algo que mantenha uma certa estabilidade num mundo tão mutável, tão instável, traz um conforto sempre muito desejado.


Mas a religião não dispõe de muitos meios para discutir a si própria, porque ela mesma não é seu principal objeto de escrutínio. Ela costuma ser normativa, verdade, mas, como essa normatividade vem “de cima para baixo”, a análise sobre seus motivos ou validade é sempre menos importante que o atestar da eficácia das suas práticas, ou, quando nem isso é possível, a religião se contenta em dizer “porque assim é como os deuses se agradam” e, visto que agradar os deuses é primordial e que eles mesmos são os personagens centrais do afazer religioso, tudo encontra boa saída, pelo menos no tangente à prática espiritual coletiva. Não quer dizer que não haja dúvidas; no entanto, estas são como as moedinhas no fechamento do caixa: sempre faltam algumas, mas o comércio não vai fechar por causa delas. Além do mais, dizem os sensatos, por que não haveria dúvidas, neste mundo tão imperfeito? E fica por isso mesmo.


O problema é circular porque a religião não pode discutir a si própria, mas precisa continuar se validando sem essa discussão e, mais que isso, precisa ir se defendendo das flechadas que o pensamento moderno, científico, racional, enfrentador dos nossos dias dá através dos adeptos indecisos ou daqueles que estão completamente fora. O círculo interno, o círculo externo: todos atacam a religião a cada tanto. E não é preciso se considerar ateu: basta ter problema com a falta de alguns atributos racionais, algo que é próprio à religião.


Sim, porque, em parte, o problema está não na religião em si, mas nas pessoas que se consideram a ela superiores por conta de terem, com sua própria racionalidade, solucionado a questão do medo, manifesta em pelo menos três formas distintas (apresentadas na parte I deste texto). A mente moderna não reconhece bem onde se situa seu próprio medo e acha que só antigos o sentiam. Ela se sente poderosa porque afastou os perigos visíveis. De fato, é um bom motivo. Mas não é suficiente. O medo, diferentemente do que seria ideal, não existe em nossas vidas por conta daquilo que conhecemos como mau. Temos medo até do que é bom! O medo é constitutivo da experiência de estar vivo e é até provável que a sua eliminação completa, caso fosse possível, lavasse de nós também os componentes mais intrinsecamente humanos. Aliás, quanto a este ponto o judaísmo faz uma assunção bem bonita, ao mencionar a importância do sentimento de Irat Shamayim (Espanto com os Céus)  – mas não como algo puramente racional; é preciso a poesia da irracionalidade para poder apreciar este passo.


E, falando em poesia da irracionalidade, a mente moderna crê que é definitivamente mais racional que os antigos, mais lógica, mais aferrada à ciência e ao conhecimento – portanto, segundo seus próprios critérios, mais próxima da verdade. Suas experiências científicas lhe indicam que sim; mas isto se dá porque, tanto quanto para os antigos, são as apreciações do intelecto que ditam o que é verdadeiro e o que é falso.


Sabemos muitas coisas, mas nos aferramos a conceitos errôneos, a erros de cálculo e partimos de buracos de saber tanto quanto quaisquer outros povos. Apenas, também como eles, criamos um mundo que está baseado naquilo que sabemos, ou seja, constituímo-nos e ao mundo em conformidade com os nossos conhecimentos. Mas tudo o que somos, sem exceção, está feito sobre o que já havia antes. Os antigos e nós estamos separados pelo tempo, mais que pelo saber… e quase só isso. Não se morria mais antes que agora. Podemos prolongar nossas vidas mais que eles e isso é ótimo, mas, se soubéssemos o que eles sabiam, viveríamos tanto quanto eles viviam, não mais, porque não somos dotados de uma inteligência maior, somos dotados de um tempo com outro acúmulo de saberes, o que é muitíssimo distinto. As casas que eles construíam não caíam e muitas estão de pé até hoje; suas comidas eram mais saudáveis e eles eram definitivamente mais fortes e resistentes; seus textos eram obras-primas da produção intelectual humana a ponto de fundarem disciplinas procuradíssimas ainda em nossos dias e nunca cansamos de nos maravilhar com suas obras arquitetônicas, com sua cerâmica, com a engenhosidade de seus artefatos, de sua poesia.


Em tudo nós somos eles. Maravilhas do DNA, da arte, do espírito.


E o que é a religião?


A religião é a área de atuação humana que criamos para lidar com o Transcendente. Com o que não entendemos. Com aquilo que, conforme se diz em algumas tradições, nos criou à sua imagem e semelhança. Veja-se que, assim como não somos mais inteligentes que os antigos, apenas tendo um outro acúmulo de saberes, dizemos “Transcendente” sem que o termo se  oponha à ideia de Imanente, porque isso não apenas não importa, como não dá conta da imagem do que sentimos que é: a noção de dentro/fora, antes/depois não é compatível com a de “Criador”. Essas categorias servem ao nosso propósito de agarrar o inagarrável para tentar imaginar aquilo que não podemos entender de fato. Mas o Criador – qualquer criador – não está dentro ou fora de lugar nenhum, pois ele é o próprio lugar (haMaqom, se diz em hebraico, querendo dizer que Deus é O Lugar); nós é que, habituados ao espaço-temporalidade, atribuímos categorias a um “ser” que forçosamente não pode possuí-las, mesmo quando ele é pensado pelo nosso incompletíssimo pensamento,  porque os atributos se originam de delimitações que não faria sentido este ser possuir, por definição.  Atribuímos porque, sem categorias, não somos capazes de dar forma a nosso pensamento. Esse processo, infelizmente, não torna nosso entendimento melhor, apenas lhe permite arranhar o possível. Algo como “podemos falar sobre um criador, ainda que não possamos entendê-lo”. E isso, mesmo assim, inconcluso, volátil, nos basta. Em outras palavras, a religião é, antes de tudo, o filosofar de uma filosofia prática, que leva junto corpo, coração, mente, alma; mas este filosofar tem seu jeito próprio e não agrada a todos.


E isso não é tudo. Para muitas culturas, o Criador não apenas não tem tempo, nem espaço, nem dentro, nem fora, nem antes, nem depois, mas, acima disso, fez a criatura à sua imagem e semelhança. Então, ao contrário do que as críticas ao sistema religioso faz, não é que nós antropomorfizamos os deuses; se nós somos ciumentos, é porque eles o são, e da mesma forma se somos bondosos. Tudo o que somos, eles o são; são eles o modelo e nós, a cópia; entretanto, a partir de um determinado momento na história, passamos a querer o que nós, por escasso, consideramos o ouro fino: a perfeição. E a perfeição é o que flagrantemente não somos. Depois de inventar a perfeição, portanto, inventamos todas as distâncias, todos os não-tempos, todos os opostos, todos os impossíveis. E somente neste aí é que nos afastamos de Deus.


Por sorte, o sistema religioso nos permite trazê-lo sempre de volta. É verdade que, como não dá para desver, já não o trazemos sem mácula – mas não é Ele o maculado, e, sim, nós: somos raivosos porque ele o é, mas exigimos que isso não seja verdade, que Ele não o seja e, com o passar do tempo, vamos nos chocando quando Ele se encoleriza conosco. Isso, nós, não os antigos. Os antigos entendiam essa dinâmica perfeitamente bem, tanto que escreveram maravilhas  sobre esse Deus de quem eles, sim, se sabiam a cópia. Para nós, aperfeiçoadores dos sistemas herdados, no entanto, esse passo ficou inalcançável. Então vamos tentando novos equilíbrios.


Ainda assim, a principal questão do sistema religioso e das religiões que o seguem é outra: somente nessa área é que podemos falar de Deus. Não há uma segunda. Melhor posto, somente nessa área podemos falar de Deus como quem O sente. É neste ambiente que as questões dos opostos, se Imanente, se Transcendente, se seja lá o que for perde o sentido por completo, se apequenam. O Deus da religião é grande, gigante, mas, diferente do Deus da física, do Deus imaginado, Ele é um conosco, topa todas as paradas, é um parça, é infinito, é incompreensível, é barulhento, às vezes some, às vezes irrita. Essas coisas acontecem na religião real, na religião vivida e só às vezes nos tratados filosóficos, mesmo quando estes discorrem sobre as comidas das oferendas. O espaço do barulho de Deus é a religião. E não vai haver uma raça humana que queira prescindir desse barulho. Não haverá nem sequer uma que queira prescindir da dúvida sobre Sua existência – embora, como já dito, essa pergunta pertença ao sistema filosófico de fazer perguntas, mas não à existência concreta do Deus que existe por meio de nós, como se nós fôssemos o exercício que Ele elegeu para experimentar a Si próprio ao mergulhar numa de suas infinitas células.


E que nós, apesar dessa infinitesimalidade, possamos ter um nome e sentir-nos também ser… isso é divino.


E é da religião, e só dela, tudo isso.


Flavia Virginia

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