Eu, Flavia Virginia

Minha mãe é a Cida, a mulher mais prendada do Hemisfério Sul, e meu pai é o Djavan, esse artista incrível que todo mundo conhece (ou deveria conhecer — corra lá que dá tempo). Eles me deram dois irmãos que são meus dois amores, Max e João. Agora tenho mais dois amorinhos, meus irmãos Sofia e Inácio, do segundo casamento do meu pai. 

De lavra própria tenho Tunis (Thomas), Laurinha e Mali, meus mais-que-amores. Tunis até me deu já um neto, Martín — tão bom ter neto, aconselho vivamente! É muito amor, entre nós. Moramos todos em São Paulo, cidade que sei-lá-porquê escolhi para ser minha há mais de vinte anos.

Desde muito cedo eu nutri um amor pelos temas transcendentais, por aquilo que nos ultrapassa, pelo mais. Sou inteiramente inconformada com os confinamentos da forma, do saber, do entender, do expressar. Não creio em finitudes, não consigo. Para mim, nada está acabado. Temos preferências, mas nada traduz tudo — para isso mesmo está o conhecer, presente maior que há. Em 1994, depois de passear por muitas formas transcendentais diferentes, eu me converti ao Judaísmo. Vivi nele as coisas mais importantes da vida adulta: casamento, filho, morte, amor. Estudo com reverência principalmente seus textos sagrados, todos os dias aprendo um pouquinho. 

Durante muitos anos eu me entendi exclusivamente cantora e compositora. Fiz muitos trabalhos, ora shows, ora gravações, até dois cds próprios. Mas, como sempre esteve presente comigo também a vontade de transmitir elementos mais do que musicais, fui fazendo isso de diversas maneiras: programas de rádio, cursos, palestras, consultorias. Lendo, estudando, ensinando, escrevendo. Cantando, calando. E assim é como tem sido minha vida. 

Há dez anos iniciei uma nova jornada. Uma que me afastou um pouco do exercício do palco, energia que eu precisava verter para dentro de mim mesma para descobrir essas novas fontes, para desenhar esse novo traçado.

 

Foi tudo difícil: as informações chegando, os filhos crescendo, o Brasil brasiliando, o equilíbrio entre estar disponível tanto para a vida fora quanto para a vida dentro; e entender os momentos de responder que não ou que sim. Eu não sabia fazer nada disso, tive que ir conseguindo porque o conseguimento é o que nos é exigido a diário. 

Algumas coisas eu já sei: quase todo mundo traz em si um sentimento imenso e indizível de saudade. As pessoas sentem falta de algo que não sabem o que é. Ela fica ali, basicamente acomodada durante um tempão, talvez a vida toda, dando a cara de vez em quando... habituando-se àquela almofada velhinha que fica num canto invisitado da sala. Ao mesmo tempo, a cada tanto a vida mesma nos obriga a dar uma olhadinha para ela, mesmo que rápida, rapidíssima. Olhamos e, pronto, vimos. Vimos e já não podemos deixar de sentir. Sentimos e nos custa deixar pra lá de novo. É possível que a maioria de nós venha a se reconfortar com um "não podemos ter tudo na vida, mesmo". Só que, aqui, é diferente: não queremos nada, a não ser que, aquilo que nos gera saudade, que nem sabemos o que é, faça-se presente, pois temos esse direito! 

E é nesse passo que eu estou agora. Junto com o que faço com a música e com o conhecimento, tenho também ajudado pessoas a fazerem o que chamo de Encontro Primordial. Muita gente escuta esse chamado de algo que é a própria pessoa, mas num outro nível. É como se fosse a alma gritando para ser ouvida, para ser reunida de volta à consciência. Textos diversos dão nomes variados para esse fenômeno — Eu Superior, Família de Alma, Linhagem. Eu utilizo todos os conhecimentos de que disponho e meu principal instrumento, o canto, para ajudar as pessoas a fazerem esse encontro com o seu Ser Primordial.

Eu me chamo Flavia Virginia. Nasci em Maceió, Alagoas, em 1972. Toda minha família vem desse estado, mas o meu núcleo familiar retirou em 1973 para o Rio de Janeiro, onde me criei. Eu gosto muito da minha vida; ela não corresponde a nenhuma normalidade, mas gosto muito, mesmo assim. 

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Acauã Novais, Chilala Moco, Marcílio Godoi, Mari Bonfanti, Mariana Álvarez, Naif Nogueira

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