• Flavia Virginia

Poemas Brasis


1

Acho ótimo ir a Paris

mas,

a pergunta que não quer me calar é:

e Roraima,

está na Internet?

(Desenhei aqui minha morte.

Fiz um poema com fogo

e ele me derreteu.

Vou ter que falar

a partir de uma outra perspectiva.)

Roraima,

de quem nada sei,

não tem terras vigentes,

só terras vadias.

Num atlas qualquer em meu coração

aponto Roraima com precisão e atitude.

Não, não está na Internet,

está numa rede que me une a esse invento.

Roraima existe, pai?

Roraima é a jaula dos meus sentidos loucos,

aqueles a quem calo

por falta de ajuda.

Roraima não me deixa ir a Paris;

agarrá-la com as mãos,

molhá-la em afluentes indígenas,

nomes tupis e guarânias à toa,

Roraima existe, pai.

Não está assim tão fácil de mim;

me exige uma fauna

de que só disponho em sonho.

Em Roraima são todos daltônicos,

de uma coloração rara,

não vêem o mundo como ele é,

mas como eles são.

Roraima resiste, pai.

Mentindo, me diz coisas.

Fala de estradas de barro

desfeitas pelo ócio

que há muito não vê caminho.

E do triste que é ser ali.

E do largado que é ser aqui.

E do computador que ligo

e não conecto

quando junto com outras partes do mim.

E do contente que rio

quando não sei que me falta Roraima

para me contentar.

Roraima insiste, pai.

Sem Roraima,

não posso ir nem a Bangu.

2

Que eu junte meu plantel de esbregue

em um século de mandacarus

e na refacitude do meu itinerário

molhe de amor as moscas do Crumataú!

Sempre fui de maldormir,

mas agora é em exagero:

vou descer para o Brejo,

de águas sólidas no vapor do vento

que do leste vem,

mares cabrios perdidos no além,

e meus dentes que caem

de comida não há.

De fina ironia em falta,

de plena dureza infinita,

meus dentes plantados no solo cabrio

desse Crumataú em desdém.

Desmantelo-me se me faço tola:

viola no braço,

jegue em ação,

e o manque do bicho me dando aflição,

renego minha origem

e peço perdão,

Crumataú, terra minha,

te deixo na mão.

3

Que as cabras são bichos sem rema

de quase-proa em sabão;

disso se sabe monte,

e safadas, também.

De deixar bode e homem

com coisa em pé,

formosas de se soubessem balir,

ovelhas se crendo, já;

não há cabra que não se veja com lã.

Já ovelha, que nunca vi,

que aqui em Rês não há,

sei que não tem coqueteza,

sei que se acha em desgrenha,

querendo alisar o cabelo

que nem mulher de motel.

Sangrando em burrice, ovelha de fora;

de onde vêm as ovelhas que não vêm,

mas que sei?

Só vêm com sangue,

são bichos de fora,

de Rês não são,

em Rês não ficam,

são de algum outro Brasil.

Eu também sou do Brasil,

nem sei bem qual,

acho que sou mulher de motel,

já alisei o cabelo

mas hoje não aliso mais;

e em Rês também não fico.

4

Esse lugar,

eu queria que existe esse lugar:

dá peixe

mas não é rio nem é mar.

Um professor teve por aqui,

ele me disse o nome de três pássaro

que canta em tono ligeiro

e eu anotei

mode não esquecer os nome.

Meu filho, quando fez treze ano,

garrou o papel, leu em voz farta

e disse:

mamãe,

tô erudindo.

7

Nuvens, nuvens, nuvens,

quero ir acima das nuvens, mãe,

acima de todas elas!

O sol não está lá?

Então!

Acima de todas, hein!

...

...

...

...

...

...

Ah, que pena,

esse avião é muito pequeno...

...

...

Nossa,

espaços de nuvens,

nuvem – espaço – nuvem,

todos os tipos.

Olha ali um pedaço de céu,

uma parte do sol!

Quero olhar o sol de frente, mãe!

Não dá,

dói o olho.

Que bom,

uma nuvem tapou,

fico com os raios

e não fico com a dor.

...

...

Embaixo,

Kilimanjaros,

Titicacas de nuvens;

em cima,

um espaço branco sideral.

Conheço um cantor que chama Wilson Sideral.

Será que ele vem da Sidéria?

...

...

Uma bola branca de sol,

que absurdo!

Sol com véu de nuvem fininha querendo furar meu olho mas a nuvem não deixa,

ela é minha amiga,

ela vai me proteger até mostrar pra mim o mais puro...

céu!

...

...

...

...

...

...

(Ah, já vai descer?

Que pena, Bel’izonte é tão pertinho!...)

8

Responda logo, mãe:

queria que esse lugar mexesse comigo

e vertesse meu sangue pra dentro do Jaruí,

e que a doçura das águas

fizesse do meu sangue bolhas

e os cardumes dançassem dentro delas.

Quando me formo poeta, mãe?

Num guento mais esperar.

Sem poesia

me sinto perdida,

com poesia

não sinto nada;

me vêm os volumes

e eu só na administração.

As palavras me ajudam

porque o que não administro,

invento.

É como se você me tapasse com seu hálito

em dia de frio, mãe,

sua canção de ninar.

Só o olhar de mãe

já faz a gente dormir!

Poesia, também:

nem precisa ser hora de entender o mundo,

ela vem abrindo umas gaiolas,

bulindo com os veres

e os dizeres,

bulindo com o “eu” da vida,

tornando épicas as formigas,

brincando com os séculos,

inventando países,

descosturando artes...

Como se fosse um vaso gigante

cheio de cartõezinhos com essas brincadeiras...

Quem dera, mãe,

me formasse poeta.

9

Silêncio na borda do Jaruí:

e é piracanga, motré e congo-do-rio

e formação de dança,

os bicho pulando como tivesse corda,

as água dançando nos óio da gente,

belezura de mundão de líquido barreado e simples.

Eita, borda do Jaruí que não cansa jamais!

- Pegá um pescado, fio?

- Pegá um pescado essa hora desmilingue os bago, nega;

‘xa pra adispois.

Nega não sabe da mansidão precisa,

home tem que descansar pros bago não cair.

E assuntar na natureza.

Esse Jaruizão criando formosuras,

se revirando inteirinho à caça de enterter a gente local,

‘magina,

pegar pescado essa hora!

Adispois, num pego motré,

que é peixe cabrio,

além de bonito feito;

motré é peixe como miçuca-papona é pássaro;

bonito feito.

Mais tarde, se o sono não me tirar pra conversa,

vou ter uma prosa com o Jaruizim,

o Jaruí-mirim,

que é meu e eu chamo de Jaruizim,

que é leito farto e chechém,

pesca com tudo:

rede,

ponta,

até na mão dá pra pescar.

Que agradecer, Jaruizim,

sua bondade infinita e paciência

com esse pescador mole e breguento que eu sou.

Tirando seus peixe,

e peixe nem pranta,

é tirar e rezar pra dar mais,

ô, Jaruizim,

perdôa eu!

Pudera, beijava suas água,

aliás,

quantas vez num já beijei,

fosse com raiva dos peixe

fosse com alegria dos cujo;

pudera, beijava suas água agorinha

num fosse a dança sem-fim

do seu pai

Jaruí.

Meus óio até mareia,

nem chamo ninguém pra ver isso,

fico mordido de cobra, parado.

Noutra vida venho motré,

que motré é peixe como miçuca-papona é pássaro,

dos melhor da espécie de peixe,

só no Jaruí pra dar.

E peixe não é planta;

se fosse, eu plantava no Jaruizim

pra pescar nem que fosse unzinho.

Se vingasse no Jaruizim

é porque era de comer, ora!

E se fosse de comer,

havia de ter o gosto mais limpinho

e terninho

de todos os peixe que tem;

havia de ter um gosto perfumado,

colorido,

penteado,

havia de ter gosto de muié,

eita, que coisa boa, Jaruí,

teu motré no meu prato

se desse no Jaruizim!

10

...e todo esse arvoroço

só porque a Sirlênia teve aqui

e pegou umas pimenta?

Por acauso você vai comer essas pimenta tudo

que seu avô prantou?

Ói, faça as conta:

O Zenílson não come que tem dor no estômgo.

A Dã Genilda num guenta mais por causo da idade.

Os menino come pouquinha,

nem o Renival que é mais maiorzinho num é chegado.

Que dirá

Zé Craudino,

Erlimar,

Mirajoara.

A Jalnice tá viajando,

só volta lá pro meio de Setembro;

quando voltar,

já tem mais num sei quantos pé pra ela se fartar.

A Cleidecí come com suficiença,

num é sangria desatada que nem você.

O Ronêidson Lucas tá ficando igual a tudos irmão,

come pimenta, bota pra fora a comida toda,

uma estragação.

Diz que é praga do avô,

o véio seu Orlandino safado ‘sconjuro.

Só quem come muitas pimenta,

de fazer careta,

de dar dó,

de fazer o pelo-sinal,

de beber água e leite e tudo o que é líquido da casa,

de rezar de joelho pra Santo Arieudes pra nada de mau acontecer,

só quem come muitas, muitas pimenta aqui é você,

Maria.

11

Sua mãe me perguntou se eu sou índio.

Quis saber nome de pai, de mãe, de tribo

lugar de nascença e tudo o mais.

Interessante, sua mãe.

Parecia mais preocupada comigo que com você.

E, ao preocupar-se comigo,

trazia um pouco de tristeza na voz,

e eu fiquei matutando enquanto respondia

no por quê daquela possível tristeza.

Mãe de milênios,

mãe de milhares,

ela fora.

A tudo assentia com a cabeça,

conhecedora de toda a história,

pra trás e pra frente.

Parecia entender o que havia acontecido

com os Oliveira do meu pai,

com os Santana da minha mãe,

com aquelas tribos tão impensáveis,

distantes, impossíveis, mortas da minha avó.

Depois me olhou muito e quase chorou.

Quase, por fora;

por dentro, chorou, sim.

Depois sorriu

e olhou pra minha barriga,

como se eu fosse parir o neto dela!

Ela me viu grávido,

os meses se mostrando,

o moleque se formando,

me viu parindo

e amamentando

e eu acho que era um indiozinho

meio com cara de judeu,

um pouco preto na cor,

com canto flamenco no jeito de chorar.

Sua mãe me usou, Joana.

Ela pariu em mim o Brasil.

12

Esses caminhos de terra

que se embolam com meu sangue

dentro de meu peito

e, quando me deito,

se não durmo, peço perdão –

essas poças de sabor e leite,

essa América que não me deixa parir,

esse jeito morte de ser,

seus bigodes e pregas que me sulcam a vida

e me desnorteiam,

América Latina

(seu silêncio imposto)

- sou mouca pra ti, América,

não me fales, não,

deixa-me a sós,

nenhum de nós nos salvará,

procura para ti um alvará,

funciona,

fornica,

fornece,

e que tenhas o Brasil que mereces,

esses caminhos de pouca terra,

esse meu peito de pouco sangue,

sou pouca pra ti, América,

deito-me e durmo em teu mangue.

13

De Zélias que matam

a Zélias que parem

é um só caminho para a distância:

Fernandos que piram

Fernandos que traem

Fernandos que usam linda camisa;

Fernandos que traem

Fernandos que piram

Fernandos que dizem: “sou eu que mando”

Aqui nessa bosta

aqui nessa bosta

aqui nessa bosta

sou eu que mando.

14

A travessia na travessa de pau,

o chão de água,

ventos que levam pra mais lá do que deviam,

eu,

pequena comida pro Grande Peixe,

Leviatã tem fome,

Leviatã cozinha,

quanta fúria, Leviatã,

meus pecados todos adivinhas?

Pareço então um brinquedo,

e assim eu levo:

é tudo um brinquedo,

essas ondas querendo me derrubar,

embora eu segure no mastro e grite e ria

e encare de frente, muito de frente,

as ondas que a cauda de Leviatã levanta.

E olho pras direitas,

só vejo mar.

E a travessa de pau,

não sei se vai resistir, a fome é tanta.

Eu não desmaio,

hoje não desmaio,

se vou morrer na boca do Peixe

morro acordada,

quero me ver em morte também,

morro viva.

E é aí que abro meus olhos

e avisto as esquerdas,

e encontro o começo de tudo,

a ponta da linha,

o cume absoluto,

a verdade das terras,

o Monte Pascoal.

O Monte Pascoal

que é, agora visto pela primeira vez,

minha redenção;

que até acalma o Grande Peixe de dentro de mim,

que me transporta para um tempo remoto

que só começo a conhecer agora,

e que já amo.

Estou agarrada ao mastro,

estou na proa com toda minha lusitânia,

agarro no mastro porque sou Pedro Álvares,

ou melhor,

Pero Vaz,

ou ainda, mais bem, um Licurgo,

sim, meu nome é Licurgo,

Licurgo Simões.

Licurgo Simões, o franzino.

Não sou importante,

sou mais assim como um bosta,

mal tenho um corpo pra me carregar,

estou aqui nesse navio por piedade de alguém,

talvez pelo contrário.

Licurgo Simões, o franzino,

que tem medo de mar,

pobre,

bobo,

feio,

virgem - ou quase.

A escória de Portugal,

a escorinha.

Venho aqui nesse mar revolto, essa hora revolta,

e avisto, junto com o Capitão,

junto com os marinheiros,

junto com a história,

avisto o Monte Pascoal,

o cume absoluto,

a promessa de terra.

Logo agora, que já me acostumava

às loucuras da água.

Logo agora, que ser um bosta

já não fazia tanta diferença.

Quando já quase não havia diferenças.

Me vem o Monte Pascoal,

e com ele

mais tudo aquilo que virá

e que eu desconheço,

mas que certamente me rebosteará.

Ou talvez não!

Talvez algo mágico aconteça ali,

talvez possa fugir e viver longe dessa importância,

e basta de "Licurgo, o franzino".

Quem sabe?

Talvez essa terra que se anuncia

me espere com…

esperança.


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