• Flavia Virginia

Euclides


1

Traz tua língua até mim, Euclides;

reforça minha trajetória de mulher

e lambe-me o que já desejas.

Euclides.

Por dentro te chamarei assim,

o que me é mais feminino

pulsando ao dizer-te o nome,

Euclides,

eterno.

Por favor, achega-te.

Devagar, não tenhas pressa,

faze tudo devagar e com zelo.

Com quase esquecimento.

Com suave calorzinho.

Mantendo-te.

Gozando onde queres,

Euclides,

berrando o que deves e o que temes.

Estarei para sempre tua acolchoada,

felpuda,

silência ou cantante,

como preferires,

como preferirmos.

Nada do real importa.

Apenas me devolveste a manhã,

me revelaste além de um sexo qualquer,

me puseste em teu colo

para que eu adentrasse

a porta de meu gozo

com a vida,

com o amor,

com tudo.

15

Resolve-me agora,

meus lábios pedindo,

minha roupa ruindo,

minha carne de fora.

E me comes tão fundo,

teu mexer pouco,

teu silêncio rouco,

teu silêncio inundo.

Me lembro de tudo:

teus cheiros do além,

teu bastão tamanho cem,

teu nirvana mudo.

De tudo me lembro:

minha própria fundura,

tua envergadura,

o gosto de teu membro.

E a tudo me rendo:

eu virada em poema

desnuda, sem emblema,

e tu sorrindo e me lendo.

17

Estou, estou rodeada de sentidos,

de corações palpitantes,

fervores,

tremores desmedidos.

E não é só a América que me rodeia,

mas teu mastro,

teu rastro,

tua língua que me semeia.

Estou, estou pontilhada de intensidades,

exclamativa,

sensitiva,

quase uma flor achada no meio de tantas saudades.

E não sou só ibérica na lua cheia,

mas crescente,

incessantemente contente

por dormir em tua teia.

(brincando de Neruda)

21

Te amo com a força do amor de todas as mulheres,

de não caber em nenhum papel os dizeres,

de não soletrar em tipógrafo algum as tintas,

de não penetrar em poros nem pelos os ares,

te amando com a dor de todas as mulheres

de forma para ti insondável e sem apelo,

e não te amo a ti,

mas a Euclides,

tão somente homem em sua configuração

e, de tão homem,

incapaz de me preender em minha ação.

Te amo de uma forma que só uma mulher entenderia,

mas, sendo ela mulher,

tanto assim não a amaria.

E não te amo a ti,

mas ao amor,

e é o amor de todas as mulheres:

amor sujo, fétido, solúvel,

amor cru, trôpego, inconstante,

amor tolo, mal-pago, errante.

E te amo de um jeito que já não descrevo,

mas, ao contrário,

que a mim me descreve;

te amo ao avesso

para encontrar-me sem osso,

como quem quisesse eliminar

a possibilidade mesma de ser amada,

como se ser amada enjoasse,

como se ser comida estragasse,

como se paixão triste valesse;

te amo com o valor de todas as mulheres,

com o torpor de quem muito quisesse,

com o terror de quem adoecesse.

E não te amo a ti,

mas ao ato recôndito de amar,

que se revela no Euclides que me és,

e que me enaltece quando o faço voar,

e que não é só sombra e peso e solidão,

mas me estraga os dentes e os ombros e o cabelo,

e me relembra de fígado e cólicas e pólipos,

e me desgraça os seios

e me machuca os olhos,

e é um Euclides furado feito raro balão;

e te amo com o sabor de todas as mulheres,

daquele que refaz todo o alimento

e o transforma em nutrição.

E não te amo a ti,

nem mesmo a mim,

nem mesmo à filosofia do amor,

nem mesmo ao poema de amor;

talvez nem ame,

talvez só haja a madrugada

e por isso apenas declame

o que tu és no agora,

e, visto que és vexame,

então não amo nada,

e te amo com o amor de todas as mulheres,

e te amo com o amor de todas as fadas.

27

...e desse desencontro que me faz chorar e rir,

cagado pelo encontro louco que me arreganha os lábios

e o plexo-fêmea,

que me cega os pelos

e me faz sentir medo e pavor e desejo;

e dessa busca medonha e cansativa e fugaz e inocente

que é te encontrar e te perder no mesmo minuto,

transformas minutos em labirintos

e eu que me foda,

sem corda nem pão,

com um objetivo quase fútil

quase sério

quase negro

quase às claras

quase sempre meio nada,

como quem quisesse rimar

e não soubesse de acordes,

como quem pudesse cantar

e preferisse dormir;

…cabanas,

tendas no tempo,

vendavais acabando com minhas solidões,

não aguento,

não te aguento mais,

Euclides,

me despe dessa minha fraqueza injusta,

emblemática,

estou cansada de tudo o que dizes,

do que te tornas

sendo,

estou fatigada de tudo o que queres

e mais do que não entendes,

e mais ainda, pior,

do que por isso pretendes,

estou enfastiada do teu medo

e de todo esse segredo,

dessa perjúria,

dessa amargura,

até mesmo dessa luxúria...

28

...e essa tristeza

e essa loucura

e essa sensação de nada;

e toda luxúria

e toda beleza

e tudo o que se ganhou pro nada...

29

...e essa incerteza

e essa amargura

e todo o futuro

ainda que às escuras

claro penetrava

e preenchia

todas as falhinhas

do meu muro

e murmurava

“amor”...

no hoje, o “nunca”

no agora, o “quando?”

no nada, o que se tirou do todo…


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