• Jornal de Angola

Irritações


Outra coisa absolutamente irritante é a mania de não abrir que alguns artigos têm. Envoltórios de cds e pacotes de bolachas, entre outros, estão apenas a fingir que querem ser abertos, quando na verdade dificultam a vida do consumidor à exaustão.

Tudo ficou pior com a invenção daquele fio vermelho que supostamente deveria tornar o acto de abrir um embrulho mais fácil. O que realmente aconteceu, porém, é que aquele fiozinho é praticamente impossível de ser puxado. Às vezes, só quem tem unha consegue. Os dos cds, então, são os piores porque aquele plástico que os reveste ainda por cima gruda na mão – um “adendus irritati”, se me permitem o mau latim.

Naturalmente que eu tenho uma teoria também para isso. Era uma vez dois irmãos gémeos. Um era extrovertido e engraçado, o outro introspectivo e tímido. Um gostava de abrir coisas, outro gostava de mantê-las fechadas. Quando ganhavam prendas de aniversário, um as abria logo e rasgava o papel de presente com gosto, o outro tinha dificuldade em desfazer-se de tão cuidada embalagem.

Os dois miúdos cresceram e herdaram a empresa do pai, um laboratório que visava criar mercadorias para resolver todo tipo de problemas. Os acondicionamentos do material de laboratório eram deficientes, partiam-se à toa, muitas vezes invalidando o conteúdo.

Ambos os irmãos concluíram que era preciso sanar aquela situação, pois estavam a perder muito dinheiro com os desperdícios. Mas o irmão brincalhão carecia também de férias, e calhou de ser o irmão, digamos assim, mais fechado a conceber a tal fita vermelha. Deu pulos de alegria aquando da volta do irmão ao apresentar-lha: “vês, não se abre com facilidade!”, ao que o irmão, bronzeado porém irritado, retrucava: “vês, não se abre com facilidade!”, mas aí era tarde, as patentes já haviam sido feitas, e toda uma nova concepção de empacotamento dos produtos assolou os mercados mundiais inexoravelmente.

Foi assim que chegamos onde estamos, com pacotes quase assassinos, como é o caso dos que acomodam pequenos equipamentos electrónicos. Sem uma tesoura, é impossível abri-los, mas fica pior ainda depois de os abrirmos, com a grande probabilidade de ferimento devida à dureza exagerada daquele plástico. Talvez esse tipo de embrulho devesse vir com um kit composto de tesoura e penso. Ou, em casos mais radicais, soda cáustica e luvas especiais.

Os electrónicos grandes ganharam um produto especial, mas nem por isso mais inofensivo: o esferovite. Como exemplo cito os aparelhos televisores, os hi-fis, os dvds ou vídeo-cassetes (lembram-se deles?). Todos vêm numa caixa de cartão que alberga em seu interior uma cápsula de esferovite, que por sua vez protege os caros aparelhos no caso de tombos. O esferovite também nos impede, ao mesmo tempo, de efectuar dignamente uma desembalagem. Sim, porque para já é uma tarefa hercúlea retirar o aparelho de dentro da caixa de cartão sem ajuda. Isso será assim porque, sendo o irmão inventor um gémeo, pensa que todo mundo tem sempre outra pessoa à sua volta. Para não mencionar que o som do esferovite a sair sofregamente da caixa de cartão é algo no mínimo tormentoso. Inclusive, aguentar ouvi-lo sem fazer caretas é um teste de força mental utilizado pela CIA em todo aspirante a espião, não sei se vocês sabiam.

O irmão, infelizmente dono de uma criatividade que parece não ter fim, desenvolveu também aquele artigo que mantém cabos como os de som ou computação impecavelmente enrolados. É um fecho de mão-única: é possível apertá-lo mais, mas nunca abri-lo sem fazer uso de uma já conhecida nossa, a tesoura.

Também na lista dos péssimos está aquele pacote de utilidade variada no ramo alimentício (bolachas, farinhas, cereais, etc.) em que basta puxar pelo meio, onde a “costura” vertical encontra-se com a horizontal na parte de cima, para que ele se abra. São muitas as vezes em que imprimimos uma força excessiva e acabamos por arrebentar o pacote fazendo chover comida no chão e sobre as pessoas ao redor. A presença de um embrulho destes é sempre um passo para o constrangimento.

Admirável é que um dos fechos mais perfeitos é aquele arame de fechar sacos plásticos de comida, geralmente encontrado em sacos de pão, não sei se estão a ver. Ele é fácil em mão-dupla, barato e adapta-se a muitas situações. Invenção anónima.

Será que os embrulhos da NASA também são assim difíceis? Duvido. A NASA, que de boba não tem nem um cabelinho, tem um jeito “papa” de ser. Claro. Seus invólucros foram desenvolvidos pelo outro irmão, o curtido.

#cotidiano

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