• Jornal de Angola

Eu Retrospecto, Tu Retrospectas...


Não sei, não, mas este me parece ter sido o ano mais ocupado dos últimos tempos. Tivemos uma avalanche de eventos loucos em todo o planeta, nem imagino como será possível prosseguir assim. Capaz que a Terra venha a desistir de continuar seu caminho normal, como quem diz “ai, preciso dar um tempo”. Se fosse eu, tiraria, sim, um descanso. Assim como está, não dá para ficar.

Claro que algumas partes do mundo são sempre mais ocupadas que outras. O primeiro prémio do quesito ocupação vai para o Oriente Médio, naturalmente. Derrame e coma de Ariel Sharon logo após a criação de um novo partido, Kadima, põe Ehud Olmert em seu lugar; Irão mantém seu programa nuclear apesar de todas as ameaças da comunidade internacional; Hamas no poder a dar fim à hegemonia de dez anos do Fatah; tiras a satirizar o profeta Maomé na Dinamarca suscitam violentos protestos e o país vê-se forçado a fechar várias de suas embaixadas pelo mundo muçulmano; naufrágio de navio Egípcio no Mar Vermelho mata em torno de mil pessoas; morre em bombardeio o jordaniano Al Zarqawi, tido como um dos principais líderes terroristas, cuja cabeça valia 25 milhões de dólares; Israel invade o Líbano numa ofensiva desigual que dura 34 dias, deixa 1.200 libaneses mortos e expulsa mais de 1 milhão do país; o papa Bento XVI cita, em discurso feito na Baviera, trechos de um texto que liga Islamismo a violência, facto que gera muita polémica e mal-estar na comunidade muçulmana, mas não o suficiente para que ele viesse a desculpar-se – apesar disso, consegue fazer sua já marcada visita à Turquia sem nenhum percalço; Saddam Hussein é condenado à morte, com direito a escolher entre fuzilamento e forca, optando pelo primeiro; atentado ao Ministro da Indústria mata esse deputado anti-Síria de 34 anos, Pierre Gemayel; o presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, chama uma conferência internacional para estudar se o Holocausto que teve lugar na Alemanha matando 6 milhões de judeus existiu ou não; guerra civil no Iraque mata milhares e, com a insistência dos Estados Unidos em manter-se por lá, não tem fim próximo.

Outro continente que fez muito barulho, embora em direcção totalmente diferente, oposta até, se quiserem, foi a América, especialmente a Latina. A esquerda é vencedora nas eleições realizadas em nove países da região: Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Peru, Nicarágua, Equador e Venezuela. Por outro lado, Fidel Castro delega poderes a seu irmão, Raúl, por ocasião da cirurgia que teve que fazer no meio do ano e da qual até hoje não se recuperou; e morre Pinochet no Chile, sem julgamento, mas também sem honras de Estado, não sem contestações de todos os lados – simpatizantes e grupos antagonistas a ele.

O Brasil viu-se presa indubitável do crime organizado em eventos marginais em São Paulo, primeiro, e no Rio de Janeiro, depois. O silêncio entre as duas ondas de acção, embora trouxesse alívio, não representa solução, como se vê. Não há uma política clara de segurança pública – e nada indica que venha a haver mesmo neste segundo mandato do governo Lula, quem, por sinal, afirmou que pessoas mais velhas não devem ser de direita ou de esquerda, mas de centro, a não ser que não tenham amadurecido como deveriam.

E, last but not least, em Angola falou-se dos preparativos para as eleições, muito especulou-se sobre os prováveis candidatos, houve a conferência sobre cultura e o lançamento da Trienal de Luanda, que ofereceu ao país um espólio cultural de inestimável valor, de outra forma perdido pelo olhar desatento do colonizador, olhar este herdado pelo próprio angolano mas que, como numa espiral, vem a ser modificado justamente com o advento de um acontecimento como a Trienal. Não sabíamos que poderíamos produzir, pensar e ser tanta arte, e agora vamos começar a sabê-lo. Não somos só petróleo ou diamantes, e a reconstrução nacional passa também por reconstruir a nossa auto-imagem – algo próprio à Cultura. Estamos a caminhar na direcção certa, e é ao perceber nossa contemporaneidade que vamos inserir-nos no contexto de um país com uma melhor distribuição de renda, e não apenas por produzirmos bens de consumo que valem muito dinheiro. Prova disso é nossa participação no Mundial, fruto de muita garra que foi confirmada por todos os cidadãos angolanos em todo o mundo. Também houve artistas do país que tiveram reconhecimento em prémios internacionais, na mesma cadeia de reorganização da auto-representação.

Parece mesmo que 2006 teve muito a dizer e disse. Todos temos votos de um 2007 ainda melhor. Será melhor, muito melhor ainda, com certeza. Muitos dos desastres naturais ocorrido neste ano poderão ser evitados no ano que vem. É preciso apenas que nos tornemos mais humanos, o que quer dizer, acima de tudo, enxergar no outro sua humanidade. Não um igual, posto que somos verdadeiramente diferentes, mas um múltiplo, como é próprio ao ser humano. Múltiplo e, por isso mesmo, único. Único, portanto, fundamental. Feliz ano novo.

#política

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