• Flavia Virginia

Apolo


1

Vou soltar um aboio

e ajunto minha boiada

e a mulher solta no mundo é assim, mulher não foi feita pra ficar solta no mundo, o mundo se esconjura todinho com uma mulher dessas, ninguém quer, todo mundo quer, os bois sai correndo no pasto, é uma beleza de ver, ninguém mais ajunta, não tem aboio firme nem padre nem santo nem ouro nem pau grande nem pequeno nem suíço nem ingleses nem pranto de mãe nem arreio de cinto nem paulada nem coisa nenhuma de nenhum brasil que ajunte, mulher perdida no meio do aboio oco da solidão deixada largada parida esquentada esfriada é uma merda,

vou soltar meu aboio ver se ajunto meus boi,

os que ajunto hoje serve pra depois, mas não serve porque se me largam de novo já volta tudo de novo, o terror a cólera o medo os verme a tristeza os sonhos bons misturado com os sonho mau e o pior a vagina que pede

não adianta,

não tem aboio que dê jeito nessa ventura

é melhor ficar quieta parada fazendo de conta que é estauta que nem mosca pode pisar é mármore pedra fria parada eu faço de conta e ganho os dia me alimento de dia de noite de hora de tempo e perco o mundo mas ganho o tempo

perco o mundo

mas ganho o tempo

2

Mais uma vez, esses Andes falidos,

pois nessa minha terra não há neve

e as montanhas só servem para chatear;

tapam a visão de quem já não vê nada,

há muito não vê nada,

ou parece que foi ontem que tudo terminou?

Ou parece que estou em Brasília,

terras planas, cerrado,

e por montanhas

tomo a solidão que me abate?

Estou num cenário bíblico ou andino ou estranho qualquer,

confundo essa vegetação rasteira

com os olhos de quem não me quer,

confundo neve com comida mineira,

confundo meu pranto com o de outra mulher.

3

Me leva contigo,

príncipe do além,

gruta estranha que eu não posso adentrar,

desconhecido e pútrido

com teu calar por donde saem as piores coisas,

príncipe do escuro,

mesmo meu sangue rejeitas;

essa brancura infinita que esconde todos os vermes,

esses olhos profundos que dissimulam toda a maldade,

todo o pavor,

tu próprio tens medo da tua sombra;

meus nervos não te aguentam,

príncipe lunar.

Espalho na minha casa toda sorte de espantos,

te expurgo com todas as maledicências,

te abomino com toda a raiva e ódio e rancor,

e ainda assim não te vais

não te esvais

e nem me deixas

nem em pensamento

nem em solidão.

Príncipe secreto,

estar contigo é o mesmo que estar perdida,

é como num labirinto a céu aberto:

as estrelas são belas e quase acessíveis,

mas não se encontra a saída,

nem mesmo a entrada,

nem mesmo o Minotauro.

Príncipe soturno,

me carregas no colo em noite de núpcias

e me enlouqueces todinha

somente para que, quando eu mirar o espelho,

não veja a tua imagem,

nem a minha.

4

E foi aí que eu perguntei a ele

mas seu moço isso é coisa que se faça

deixar uma moça assim, uma quase-donzela, a mercê das mosca e dos bicho tudo e não dar nem um cheiro na priquita dela e só ficar falando essas maluquice de homem branco de homem rico de homem que tem problema

na minha terra os problema são é outro

é a fome que não deixa ninguém ter mais problema nenhum

lá se junta dois três quatro vizinho ninguém vai falar tô confuso quero água mas quero ter sede porque a seca vem e diz pra todo mundo é sede,

então a opção da gente é sede e vai sede mesmo,

a seca inteira falando disso é um esquema mais solidário que dá pra todos a mesma impressão de ser gente ingual, sem privilégios, a sede igualando a todos, uma beleza, é a justiça da natureza,

mas aqui no sul parece que não sei

os problema é outro

as solução mais outra ainda

eu quero água mas quero ter sede então tiro de quem tem e fico só espiando o copo, alisando o copo, aquele copo cheiinho, as gota caindo pelas beirada, eu hein, que maluquice, seu moço, que leseira, seu moço tá é leso, quando o dono do copo vem e diz dá cá o copo, fi’du’a égua, aí seu moço que se fazia de bobo mas de bobice num tem é nada diz não, eu quero água, mas antes tenho que olhar, antes tenho que alisar, antes tenho que deixar evaporar…

6

Não morras nunca,

Apolo,

pois se morreres morrerá toda a minha seca solidão de ti.

Melhor permaneceres assim,

apenas calado,

inerte,

incólume

e inacabado,

tendo o sépia como dom

e as notas bemóis como tom.

Híbrido.

Íngreme.

Ístmico.

7

Morte morreste em singela noite de verão,

meu vestido amarelo de aberturas nas pernas,

a dor do adeus me atacando o ventre,

eu mesma mal sabia

o quanto te abandonava, ali.

E não houve perdão.

Me juntei

e nesse rejunte

desisti de ti

em favor de uma eu mais real e autêntica,

mais feliz.

Por que não vieste comigo, Apolo?

Como prometias,

como prometeste…

Nem sonho contigo, já, sabias?

Vida viveste?

Morte morreste.


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