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Ponte-Rio Luanda

– E aê, minh'irmã, certinho? – arrastou aqueles erres cariocas como um boi que arrasta um arado, fazendo sulcos no ouvido alheio.

Havia mais de dois anos que eu não ia à cidade, cujas últimas aparições na tv não animavam em nada uma ex-moradora, muito menos os turistas que trazia comigo a tiracolo. Os primeiros momentos foram caóticos, pois por si só já o é o aeroporto Antônio Carlos Jobim, e ainda mais na chegada de um vôo de Angola: são milhões de expatriados esperando, ansiosos, notícias, sorrisos, gerações antigas, gerações vindouras. O vôo, como se sabe, vem lotado, e nós os quatro somos uma gota naquele oceano de composto angobrasuca, inclusive nós mesmos tingidos da mesma tinta mesclada entre os dois países que, se já eram irmãos, agora estão ficando quase siameses.

Mas é um quase superficial. Uma das graças de se ir ao Brasil é ver o quanto é diferente de Angola. Alguns dizem dele “aquilo que Angola tem potencial para ser”. Postos no local, no entanto, desejamos simultaneamente que Angola venha a ser igual sendo bem diversa.

E é nesse paradoxo que se perfaz toda a viagem, ao observarmos os carros, a programação dos vários canais abertos de televisão, as revistas, as lojas de suco, os turistas, as bancas de jornal a cada 100 metros. Ou os churros e todos os outros doces dulcíssimos que os brasileiros tanto apreciam, o chope do Bar Lagoa, o Árabe da Lagoa, a Lagoa em si. E ainda as novidades: a nova loja de chocolates no Leblon, o novo hotel da Barra, os novos bebês que chegaram à mesma época que a minha, os novos bebês que estão para chegar.

O Rio, para quem só o conhece pela televisão, é hoje um conglomerado de favelas circundantes a um concreto bloco classe-média, à exceção da Barra da Tijuca, onde se isolam os mais endinheirados num estilo de vida inspirado em Miami. Favelas, musekes – mais um jeito de ver as diferenças semelhantes entre Brasil e Angola: favelas que compartilham com seus irmãos musekes casas feitas de papelão e outros materiais oriundos do lixo, gatos para eletricidade e água, falta de saneamento; favelas que possuem, entretanto, um repertório exclusivo de tráfico de droga, bandidos, crianças com artilharia pesada nas mãos, baile funk, adolescentes da classe média-alta que sobem o morro em busca de preencher um vazio existencial típico dos nossos tempos; tudo isso e mais... as pessoas, quase sempre nos esquecemos delas, ou só pensamos nelas enquanto problema social. Museke, por outro lado, é muitas vezes para além de si próprio; tem horas em que museke é quase tudo. Caminhando juntos, favela e museke parecem não ter fim, parecem ter em seu destino a eternidade, a imparável evolução daquela involução que nós não queremos, mas que se estica para além dos nossos desejos e poderes.

Uma outra defasagem, no entanto, é que o museke é algo que se costuma levar consigo para onde se vai. A favela, não; não hoje, em 2006. Quem descer do morro trazendo consigo a favela não se emprega em nenhum lugar. E, no Rio de Janeiro, mermão, sem emprego tu não é ninguém, sacou? E, como o emprego está em falta e os querendo se empregar são muitos... No Rio de Janeiro há toda uma horda de ninguéns, ninguéns que vemos perambulando pelas ruas, ainda em suas limpas roupas, ainda senhores de palavras educadas, ainda detentores de polidos sorrisos, ainda demonstrando alguma esperança de voltarem a ser algum alguém, salário-mínimo que seja, o dinheiro que mesmo mínimo dignifica o homem porque significa trabalho e trabalho expressa eu valho, eu tento, eu me esforço, não perco a cabeça, não viro indigente, não viro ladrão.

Na igualdade dessemelhante entre esses dois países, o museke se alarga, estende seus braços como as roupas que vemos nos prédios inacabados da cidade de Luanda, proliferam-se como os mosquitos com quem dividimos o filme no único cinema local, e alcançam-nos a todos indiscriminadamente quando adentramos nosso espaço de trabalho ou um gabinete público ou uma loja comercial. E não se rende tão cedo, pois está também no lixo das ruas, nas gasosas a toda a hora e por qualquer motivo. O museke dorme e acorda conosco.

E talvez haja aí mesmo uma lição, por fim. Em vez de sermos estrangulados por uma favela que nos vai matando em revolta contra nossa sensação de “nós” e “eles”, quem sabe em Angola, onde “eles” estão definidos dentro de “nós” neste inesgotável museke, quem sabe aqui o belo influencie o feio, e a camisinha se sobreponha ao sida, a higiene vença as doenças, a arte reduza a mediocridade, e o trabalho finalmente se imponha à gasosa.

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Acauã Novais, Chilala Moco, Marcílio Godoi, Mari Bonfanti, Mariana Álvarez, Naif Nogueira

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