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Meu Mundial Ideal


Todas as atenções estão voltadas para o Mundial, basta abrir os olhos ou ouvidos para perceber isso claramente. É bonito ver que o mundo inteiro pode se mobilizar em torno de uma causa comum, mesmo quando ela tem por objectivo a competição, o “que vença o melhor”. Aliás, é até comovente, nem parece que aqueles ali somos nós mesmos. Onde andará nosso espírito belicista, fomentado por aquela imparável ganância que vem nos levando para frente sem nos tirar de trás? Quanto mesmo custou a reforma do estádio de Munique, 250 milhões de euros? Du-zen-tos-e-cin-quen-ta-mi-lhões, nem que fosse de zimbos, já era de impressionar qualquer um. Como é que um desporto cujo objectivo é meter uma bolinha - que pode até ser de papel – numa rede chamada golo chega a esse ponto da história económica mundial?

Ou ainda mais inacreditável: como é que até hoje não conseguimos mobilizar nem uma pequena percentagem dessa força em prol de algo que, por exemplo, terminasse com a fome, ou transformasse a rivalidade expressa nas guerras em jogos desportivos, como sugeria a Grécia ao criar as Olimpíadas, ou impedisse os homens de exercerem violência contra as mulheres e as crianças, ou ajudasse a reconstruir os povoados destruídos pelos fenómenos naturais? Como é possível que para o futebol, tanto, para a vida real, tão pouco?

Pois eis o meu mundial ideal: haveria uma federação internacional não denominativa que albergaria os países que quisessem dela participar. Durante um mês por ano, os cidadãos dos países confederados se engajariam numa causa fundamental, cuja escolha seria feita por sorteio. Não seria obrigatório, como não o é o empenho na Copa do Mundo, mas sim uma questão de honra, de alegria, de pertencimento, etc.. Durante aquele mês inteiro as atenções dos países estariam voltadas inteiramente à região do mundo escolhida, para resolver o problema apontado, fosse ele fome, miséria, exclusão, cancro, sida, alfabetização, segurança, êxodo demográfico, catástrofes da natureza, racismo e outros preconceitos, enfim, o que não falta é coisa para consertar e teríamos material para muitos anos. De quatro em quatro anos haveria uma festa especial na forma de uma disputa internacional de futebol, sendo participantes os países que melhor contribuíram nos últimos quatro anos para as causas apontadas, em todos os indicadores possíveis: número de pessoas comprometidas, cobertura dos mídia, dinheiro investido, fundações beneficentes funcionando com trabalho comprovado, criatividade na solução dos problemas apontados durante aqueles quatro anos. O futebol seria, assim, uma verdadeira comemoração, a vitória do homem sobre sua capacidade de desunião e antagonismo.

Assim como é, o futebol suscita alegria, é verdade, mas também a confirmação de que temos uma infinita capacidade de obliterar o urgente, de trocar o fundamental pelo interessante, de deixar as coisas como estão para ver como é que ficam. O futebol, esse fica cada vez mais rápido, mais técnico, mais forte, mais rico, e mais violento, também. Da mesma maneira é o resto: a tecnologia, o avanço das telecomunicações, os filmes, as carreiras meteóricas, as destruições pelos tsunamis, terramotos, maremotos. Afinal, o que estamos esperando, que fiquemos todos sem água, por exemplo, para nos darmos conta de que não é possível passar a diversão, a brincadeira, nem mesmo a alegria à frente da tristeza, da guerra, da rivalidade? Já repararam, por exemplo, que a maioria dos jogadores advém de classes sociais baixas, e que é só na hora da vitória que essa classe ganha alguma notoriedade, que as origens paupérrimas desses indivíduos interessam, que suas famílias, mesmo que vivendo com mais folga agora, tornam-se pseudo-celebridades por alguns instantes? Como será que essa gente se sente durante o resto do ano, dos anos? E quanto será que ganham os jogadores que não são superstars?

Me parece que o futebol, a música e as artes cénicas, todos indispensáveis enquanto agentes da cultura de cada país, cada povo, estão tomando o lugar de temas cuja urgência não pode ser negada e relegada a segundo plano há muitos e muitos anos, muitos mais do que nós podemos aguentar, muitos mais do que a Terra pode aguentar. É óptimo ter toda a beleza e vivacidade da cultura artística e do desporto nos ajudando a colorir a existência, a nos revermos na vida de pessoas brilhantes, a escutar nossas próprias histórias recontadas de forma surpreendente. Mas nós não somos só isso, nossa vida não é só isso. É bem mais dura, mais feia, mais complicada, mais intrincada nas vidas de outros. O futebol nos une, mas o exagero com o qual é tratado nos separa e, se os terroristas concordarem com isso, algo de muito mau pode acontecer. E, hoje em dia, é só diante do terror que nos apercebemos do óbvio: nossas acções não correspondem à dos homens civilizados, estejam eles do lado em que estiverem.

#política

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Acauã Novais, Chilala Moco, Marcílio Godoi, Mari Bonfanti, Mariana Álvarez, Naif Nogueira

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