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Emagreça a Dormir

Não sei vocês, mas eu recebo diariamente na minha caixa de mensagens electrónicas uma média de 4 e-mails do tipo spam com o assunto “emagreça a dormir”. Do alto dos meus 51 quilos distribuídos em 1,67 m de ser humano, soa especialmente engraçado. Mas essas mensagens me fazem lembrar a época do “aprenda inglês a dormir”, lembram-se? É anterior à internet, e o processo, apesar de aldrabão, demonstrava pelo menos alguma engenhosidade: a pessoa adquiriria noções da língua inglesa subliminarmente ao escutar as gravações em cassetes durante o sono. Era prático, porque não precisaria dispor do seu precioso tempo de vigília para se dedicar a estudar. Quando entrasse em contacto com a língua, já acordado, faria uma espécie de “reconhecimento” automático dos termos apreendidos nas noites anteriores.

    Interessante. Mentiroso, mas interessante.

    O irmão moderno das fitas de inglês, entretanto, promete a queima de nada menos que 5 a 9 quilos de gordura por mês enquanto está a dormir. Não é uma fita cassete recheada de dizeres “eu sou magro, eu sou magro”, como a princípio pensei, mas sim cápsulas com ervas que queimam a gordura enquanto se dorme, além de promover outros milagres, como desintoxicação do organismo, músculos mais rijos, tonificação da pele, etc., etc.. Mas calma, o melhor está por vir: não é necessário fazer dieta! Tudo ficou para trás: a malta a matar-se na academia, a fazer regimes de todo o tipo... Finalmente chegaram essas ervinhas aí, que trarão todo o sucesso do mundo sem trabalho nenhum.

    Há um tempo atrás, apareceu no Brasil um médico que ficou instantaneamente famoso, por ser o preferido das actrizes de televisão, as verdadeiras especialistas em magreza por exigência do vídeo (o ecrã engorda as pessoas em mais ou menos 3 quilos). Esse médico infalível, cujo nome não revelarei não por discrição mas apenas porque não sei, receitava às suas pacientes duas pílulas branquinhas sem nenhum outro esforço. Pronto. Era o suficiente para que elas mantivessem o peso dentro dos sempre imaginários “limites aceitáveis”.

    Esse homem ficou riquíssimo, disputadíssimo, idolatrado, enfim. Tanto que levou algum tempo para que o seu poder hipnótico desse lugar a algum pensamento ligeiramente mais científico, proporcionando a dúvida óbvia: afinal, que fantásticas substâncias continham aquelas mágicas pilulazinhas?

    Após alguma análise, levada a cabo não sei por quem, descobriu-se que cada uma das pílulas continha um filhote de ténia, sabem o que é?, no Brasil chama-se lombriga, um verme que cresce enormemente no intestino e devora tudo o que você come.

    Portanto, esse método das lombriguinhas teve seus dias contados, afiguro que com alguns protestos de pessoas que achavam que o benefício era maior do que o custo.

    O que me espanta mesmo é ver a que ponto o homem é capaz de por sua imaginação para funcionar para criar soluções em que o trabalho pode ser posto de lado. Não sei de onde vem essa preguiça de trabalhar, se já no Paraíso labutava-se, ao que parece. Além disso, não conheço nenhum exemplo concreto e duradouro de sucesso sem suor, a começar pela educação dos filhos. É uma árdua tarefa, porém sem ela não se cria seres humanos normais.

    Essas soluções têm como contrapartida a criação de necessidades desnecessárias, para a posterior venda de produtos supérfluos travestidos de fundamentais. Um exemplo disso é os telemóveis. É evidente que eles são de grande ajuda para muita gente, e têm adiantado a vida dos negócios e em muitos casos até da segurança. Mas eu pergunto: para que uma criança de 10 anos, que só se movimenta com algum adulto de confiança, precisa de um? Ou ainda, para que o meu jardineiro precisa de um? Ele recebe o equivalente a 75 dólares por mês para cuidar do jardim da minha casa, que está cada vez mais destruído, aliás (o jardineiro parece só gostar de relva, a única coisa mais ou menos intacta até agora – tenho que lhes falar desse homem, qualquer dia). Para que uma pessoa que aufere esse rendimento precisa ter um telemóvel, cuja compra equivale a dois meses sem comer nem beber, e cujo “combustível” – as recargas – são também caras? Para saber se está tudo bem com a mulher e os filhos? E por que estaria mal, ou pelo menos pior do que quando não havia telemóveis? Não há explicação que me faça compreender. É uma falsa necessidade.

    Emagrecer a dormir obedece a uma categoria mais complexa de falsas necessidades. Em primeiro lugar, permitiria manter o mau hábito de comer o que não se deve e em muita quantidade, indicando que é possível melhorar sem mudar. Falso. Em segundo lugar, mesmo a decisão de emagrecer deveria advir do desejo de uma melhora do bem-estar geral da pessoa, e não de um preconceito dissimulado. Emagrecer não pode ser uma imposição sócio-cultural assim como ser gordo não pode ser fruto da negligência.

    De qualquer modo, deveria mesmo era haver um mecanismo que funcionasse para todos os meios de comunicação e no mundo inteiro, de acordo com o qual os vendedores tivessem que pedir nossa autorização para nos tentarem vender alguma coisa. Para escapar dessas vendas impostas, eu até gostaria de emagrecer a ponto de ficar invisível!

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Acauã Novais, Chilala Moco, Marcílio Godoi, Mari Bonfanti, Mariana Álvarez, Naif Nogueira

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