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Que Micetina!

A liberdade religiosa deve ser uma das melhores conquistas da humanidade, não tanto porque permite que todos os homens fiquem felizes, porém porque satisfaz a todos os deuses.

Ouvi nestes dias na rádio a pastora de uma igreja que não pude identificar a falar especificamente para outras mulheres. O tema era a relação sexual entre esposos. Ela trazia a público uma dúvida pela qual é questionada com certa frequência: em que medida deve a mulher estar “disponível” para seu marido?

A pergunta e a frontalidade da abordagem ao tema fizeram com que meus ouvidos fossem atraídos ao aparelho de rádio com força; não me acidentei, pois por sorte estava parada esperando – quem? – um conhecido meu, dono de restaurante – ora, nem mais.

A pastora foi peremptória e determinante no que diz respeito ao tema: a mulher deve estar disponível para o marido SEMPRE que ele assim o desejar. Outra senhora perguntou-lhe: “mas e se a mulher sabe que o marido tem uma namorada, e ele chega em casa às 2, 3 da madrugada, ainda assim deve estar disponível?” Ao que a pastora, categórica e decisivamente retrucou: “sim, a mulher deve sempre estar disponível ao seu marido e recebê-lo com alegria, porque é assim que fazem as mulheres da rua”. Recitou, então, os trechos da Bíblia que segundo sua interpretação corroboram sua teoria – algo em torno de o corpo da mulher pertencer ao marido e o corpo do marido pertencer à mulher. Para mim, esses versos mais “derroboram” a teoria da pastora, pois neste caso o homem tampouco tem o direito de ter uma namorada fora. Não sei como esse impasse se resolveria sob o ângulo da “teologia jurídica”, mas acho que algo não vai bem naquela linha de raciocínio.

Claro que também sabemos todos, eu inclusive, que em África a prática de ter uma esposa adicionando-lhe algumas namoradas fora é antiga e arraigada, e é de se imaginar que a pastora tenha usado como critério defender o mal menor – a traição – a fim de evitar a dissolução do casamento e portanto a desestabilização familiar, considerados males maiores.

Mas é na base deste mesmo tipo de pensamento que reside a proibição do uso da camisinha por parte de outras igrejas, por exemplo. Aliás no caso que estamos estudando o problema da transmissão de doenças nem sequer é mencionado, embora com a permissividade da traição provavelmente virá também a falta de cuidados – até porque o marido utilizar-se da permissividade que a religião avaliza indica que a esposa nem sequer os merece.

Acredito até numa coisa que, a meu ver, é ainda mais grave: de alguma forma aquela pastora foi convencida, quase certamente por mentores homens, de que desta maneira está a proteger as mulheres, pois ela mesma chegou a afirmar que os instintos sexuais masculinos são mais urgentes que os femininos. Talvez não conheça os casos em que as mulheres têm bastante mais libido que os homens, casos esses que nem sequer são raros. Não creio que estejam figurados na Bíblia, mas isso não dá o direito aos mentores de não pensarem na possibilidade.

Pois é por nem aventar a possibilidade que muitas situações permanecem sem solução e grupos inteiros de pessoas ficam alijados do processo religioso, a viver uma espécie de limbo devido ao anonimato ao que foram confinados. Então não haverá mulheres absolutamente pias a quem parece um desrespeito que os maridos tenham outras na rua e ainda por cima queiram ter uma vida normal com as titulares? E quanto àquelas que, conforme outra pergunta posta no programa de rádio, à noite estão cansadas da lida diária, trabalham, estudam e têm bebés pequenos, também devem estar disponíveis?

Mais uma vez, a pastora foi imperativa e basilar, até mesmo exemplificante: “sim, eu mesma tenho bebés gémeos e sempre estou disponível”.

Mas, pastora, não será que temos sido demasiadamente disponíveis? Inclusivamente essas mulheres que namoram os maridos alheios ou mesmo as prostitutas, não são elas mulheres excessivamente disponíveis? Será que é de mais disponibilidade feminina que o mundo contemporâneo está a precisar? Pelo menos permita-me perguntar: como seria um mundo em que, em vez de disponível, a mulher estivesse realmente com vontade? E o marido soubesse esperar por ela com alegria, aproveitasse-a com delicadeza? Que grande demonstração de respeito! Não seria esse o significado máximo da palavra “disponível”? Um poder dispor da vontade do outro com a respeitabilidade, a tolerância e o apreço que só uma união abençoada pode dar. E é abençoada não só porque seguiu os trâmites da tradição das bênçãos, mas porque professou os caminhos do coração humano.

Espero ver o dia em que as mulheres pensarão, falarão e agirão como mulheres, e que os homens serão complementares a elas e ambos viverão verdadeiramente dentro do mesmo mundo.

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Acauã Novais, Chilala Moco, Marcílio Godoi, Mari Bonfanti, Mariana Álvarez, Naif Nogueira

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