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Cuidado com o MIL

Vocês já devem ter reparado, assim como eu, que Luanda está disposta a crescer, ou melhor, a crescer, não, a estourar. Aliás, não sei se disposta é a palavra certa, acho que nem há palavra certa para o que está a ocorrer. Todas as regras e bons costumes relativos às dificuldades da vida numa grande metrópole estão sendo quebrados impiedosamente por esta pequena aldeia. Já não há hora para a hora do rush, por exemplo. Andar de carro na cidade é agora uma afronta, que só perde para andar a pé – altamente perigoso. Se bem que estão a consertar os passeios, mas estes estão mais dedicados aos carros do que aos peões, pois não há estacionamentos. A solução é ficar preso no trânsito por no mínimo meia a hora mais do que o que seria óbvio, o que causa atrasos ainda maiores aos já pouco pontuais kaluanda.

    Substantivos como “caos”, “inferno”, adjectivos do género “impossível”, “insolucionável”, advérbios da família do “deprimente” ou do “já era” são algumas das palavras que podem ajudar-nos na expressão dos sentimentos que assolam-nos quando a luz falta por dias seguidos, ou quando a água vai-se durante o champô no cabelo no banho.

    Mas nada, repito, nada nos tem preparado para o grande Monstro de Loch Ness, o Abominável Homem das Neves, a Mula Sem-Cabeça que é o novo Mercado Imobiliário de Luanda, aqui nesta coluna carinhosamente alcunhado de MIL.

    São muitos os detalhes que chamam a atenção e que acabarão por perfazer o perfil do MIL. Para começar, praticamente só são aceites edifícios gigantescos que tornarão lúgubre o restante da cidade, pois sua altura eliminará a presença do sol dos reles mortais que aqui em baixo residirem. Já ouvi compararem-no com Dubai, que parece ser o modelo inspirador se não arquitetónico, pelo menos ostentatónico.

Além disso, há uma evidente competição sobre quem termina primeiro sua construção. É engraçado ver que esses prédios, até prova em contrário, engolirão toda a energia e a água que já é bastante deficitária na baixa de Luanda. Mas eu, preocupada que estou com o tema, após muita reflexão gostaria de propor uma sugestão. O primeiro andar sempre deveria servir de Espaço do Bem-Estar do Cidadão, o EBEC. O EBEC será uma grande área com ar condicionado e várias casas de banho pronta para abrigar os cidadãos baixo-kaluanda na eventualidade de uma falta de água ou de luz, a acontecer com muito mais frequência que hoje, precisamente por causa das panes extras sobrevindas pelas dimensões descomunais desses imóveis em contraposição à pouca infra-estrutura da cidade. Mas com o EBEC tudo mais ou menos equilibra-se: saímos todos dos nossos locais de trabalho e vamos ao EBEC mais próximo, onde permanecemos até a volta da luz ou da água. Novas relações de amizade serão fomentadas e quem sabe até outras oportunidades de negócios, o que poderá resultar em... mais edifícios gigantes.

Porém, o mais impressionante do MIL não é o complexo de Dubai nem a concorrência para terminar e muito menos as mudanças em cima da hora causadas pela inveja na descoberta dos materiais de acabamento uns dos outros. O que mais causa espanto é o indomável avanço desses prédios para cima dos passeios. Na marginal, por exemplo, há um que, dado o seu tamanho e posicionamento, muitos, muitos metros à frente do alinhamento de todo o resto, mais parece um relógio de sol, cujo propósito seria dar a conhecer a quem vem de avião a hora certa, uma vez que sua sombra vai parar lá na Baía de Luanda.

Faz uma imensa impressão o tanto que o MIL necessita de espaço roubado ao passeio, ou seja, ao peão, para não mencionar à estética. Não acredito que em Dubai seja assim. Já não basta obrigar-nos a caminhar pelo meio da rua, por entre os carros em movimento – poucas são as construções que fazem seus estaleiros dentro dos limites do terreno, a maioria coloca-os no meio do passeio público, transformado, assim, em privado. Também os camiões que vêm descarregar material o fazem durante o dia, parando no meio da rua e contribuindo para que o trânsito seja ainda mais complicado, além de tornarem-se mais um obstáculo aos peões.

Nada disso parece ter importância para as construtoras, mas é capaz de o MIL estar a mexer até com a fauna de Luanda, já que os pássaros, habituados a traçarem uma rota de voo x, vão começar a dar cabeçadas nos edifícios ladrões-de-passeio, e em breve haverá um monte deles mortos no chão; isso pode causar um desequilíbrio ecológico grave, uma vez que eles se alimentam, dentre outras coisas, de mosquitos. O que faremos nós se o número – e as qualidades – de mosquitos aumentarem? Andaremos com fatos de astronautas na rua? Não estaria de todo mal, pois como já disse antes, daqui a pouco não mais haverá sol aqui em baixo. Mas minha preocupação neste caso é de fundo cultural: como será um fato de astronauta à besangana? Acho que não estamos preparados para isto. Dubai, tudo bem, mas Lua...

Não sei se repararam, mas Luanda está prestes a estourar...

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Acauã Novais, Chilala Moco, Marcílio Godoi, Mari Bonfanti, Mariana Álvarez, Naif Nogueira

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