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Ai, Saudade...


Estou a fazer Portugal de lés a lés e eis que aprendo por primeira vez como é linda esta terra, que frescores revela aos que a querem íntima, sendo copiosa em rios, árvores generosas, nobres iguarias para alegrar os estômagos navegantes. E é também boa a sua gente, de ricos sotaques, de visões de mundo peculiares tanto se estreitas quanto se vastas, e com ambas é fácil instruir-se seja em Lisboa, seja em Aljustrel.

Aliás, por esta pluralidade é que tem maior significado privilegiar as cidades menores, não para desprestigiar a doce Lisboa, mas porque dela já muito sabemos e das outras muito há por se saber, fartas que são. Apesar disso, acrescento que na capital surpreendeu-me seu atento olhar artístico: em cartaz encontram-se concertos com os maiores nomes da música mundial, teatro para todos os gostos - inclusive os maus -, dança, museus com exposições imensamente variadas, mostras de cinema que vão desde ao ar livre em ecrã gigante (400 metros quadrados) até cinema de arte provenientes de todos os lugares do mundo.

E, embora muito haja para enternecer os sentidos, elejo como mais inesquecíveis que tudo os nomes com os quais baptizaram-se as terras portuguesas, homens heróicos, belezas de outra forma efémeras, prefixos cravados à espada, todos história, honra, poesia.

Nos anos em que o idioma árabe e a língua portuguesa casaram-se, foram criadas maravilhas sonoras como Alcácer do Sal, Almodôvar, Alcobaça, Alcabideche, Alvaiázere. De notar-se é também o apreço dos portugueses pela terminação “ão” e todas as suas declinações possíveis, dentre as quais prefiro as “ã” e “ães”: Alvarães, Cantelães, Chavães, Fiães; Covilhã, Fajã, Lousã. As esdrúxulas são-me igualmente caras: Grândola, Gândaras, Zêzere, Ílhavo. E destaco ainda Viana do Castelo, Oliveira de Azeméis, Marco de Canaveses, Janeiro de Cima, Caldas da Rainha, Figueira da Foz, Paredes de Coura, Linda-a-Velha, nomes como se de versos se tratassem. Vila Franca de Xira, Estremoz, Moura, Carrazeda de Ansiães, Vreia de Bornes, Vilarinho de Samardã, Torres Vedras, ó, Portugal, através de seus nomes tocas no mais fundo meu coração e minha alma, pois de palavras também eu sou feita.

Estive por fim em Sagres – vocábulo não menos lindo –, aquela imensa língua que vem tentando, desde tempos imemoriais, lamber o Atlântico, quem lhe responde com seus ventos incessantes. Pois ambos, terra e oceano, foram vencidos apenas pela insuperável ambição do homem, sentimento impulsionador daqueles que partiram a vandalizar territórios alheios, feito que ficou descrito na memória das gerações como “descobrimento”. A mim, a mais estranha afecção ocorreu-me justo ali, em Sagres. Enquanto tratava de cortar o vento e chegar-me à ponta da língua, fui fisgada pela sensação da areia que escorre das mãos quanto mais a apertamos, quanto mais a tratamos de reter... Eu queria conter Sagres em algum recanto de mim, sabendo-me filha daquela língua, entendendo-me fruto daqueles ventos, mas não podia. Passeei por ali com a mesma leviandade habitual, não cabia nos meus passos nem à minha mirada, por cautelosa que fosse, apreender aquele lugar. Sua História é por demais grandiosa, ultrapassa-me incalculavelmente, sou apenas o grito de uma de suas gaivotas antes de fazer-se ao mar para sempre. Sou nada, Sagres é. Caminho como nada, e tampouco nada há para olhar, portanto o que olho o faço com irreflexão, embora do lado de dentro do meu olho – e só eu posso sabê-lo, isso não se adivinha – fervilhem emoções inefáveis, pensamentos desconexos, quase-lembranças de uma época que pertence apenas à memória da minha alma latino-americana, esta que veio com traços sanguíneos de negros do Dondo mas também, digo eu porque como tal o desejo, permeadas de amores adúlteros de proscritos pela corte talvez assim proscritos porque adúlteros enquanto corte; confiro-me certo porte nobre porque de tal forma desejo, porque tal às vezes me vejo, e recordo-me até das últimas palavras deixadas cá na terra, das apenas primeiras lágrimas deitadas pelo rosto de minha ultra-avó, que nunca deixou de chorar naquele chão alheio que teve que chamar de seu à força, que odiou com todo o seu ser porque então já não podia amar a mais ninguém, nem mesmo ao índio que a fez tão infinitamente feliz e que lhe deu todos os seus 12 filhos e com ela morreu sob a sombra da seringueira que ainda ofertou a toda a sua geração a borracha que desgraçou a vida de alguns netos e enriqueceu a outros, outros esses que migraram para a costa do mundo novo já nem tão novo, onde plantaram cana para alguns de seus descendentes morrerem de cansaço mas para outros fazerem-se senhores de engenho ricos e incólumes, outros ainda cangaceiros matadores e justiceiros, pois uns tantos padeceram de sede no sertão do nordeste brasileiro apenas para que sua morte servisse de exemplo do vazio que às vezes representa viver, até que a alguém dessa tão absurda família lhe pudesse ocorrer: quem me dera conhecer Sagres, agarrá-la e fazer-lhe um poema.

Ai, saudade...

#cotidiano

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Acauã Novais, Chilala Moco, Marcílio Godoi, Mari Bonfanti, Mariana Álvarez, Naif Nogueira

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