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Bush É um Acerto Só

Se tem uma coisa que eu não entendo em nós é essa mania estranha de só conseguirmos fazer leituras óbvias quando o óbvio é a única coisa que não cabe.  Vem-me à mente a escrita da esquerda para a direita de Leonardo da Vinci, que levou anos sendo considerada um código indecifrável, até que alguém pegou um espelho e desvendou um mistério nem tão grande assim.

Bush não está a errar; pelo contrário, está a acertar e muito. A essa altura, acho que nós, os seus críticos, já poderíamos sair do nosso pedestal intelectual e aceitar o fato. Pelo menos para manter a coerência interna da nossa própria leitura sobre os acontecimentos dos últimos 6 anos.

Explico: se crermos em Michael Moore, para começar, e seu Fahrenheit 9/11, e em vários dos documentários do aniversário de 5 anos do 11 de Setembro, todo o atentado ao World Trade Center terá sido uma armação do próprio governo Bush no intuito de angariar boas desculpas – e inclusive simpatia pública – para a invasão de qualquer coisa que fosse muçulmana – tomemos como exemplo o Afeganistão, que não tinha nada a ver com o barulho, mas pagou o pato mesmo assim. Logo em seguida veio o Iraque, que vai celebrar sua festinha de 4 anos agora em Março. Mentiras de um género para um país, de outro género para o outro, e estamos livres para jogar bombas e mais bombas na cabeça de quem quisermos.

Depois de ambas as invasões, até a esquerda americana (embora possa  soar-nos engraçado falar em esquerda justo naquele país, há lá pessoas que assim se consideram) encontrou justificativas nunca dantes navegadas pelo próprio governo Bush que têm sido repetidas agora por muitos ao redor do mundo: o Iraque precisava democratizar-se, e sem as bombas por sobre as crianças, a destruição do espólio da Babilónia, para sempre perdido, a destituição da dignidade das pessoas, transformadas em bandidos, saqueadores, seres movidos a ódio, e, especialmente, sem o insuflamento das rivalidades tribais, como, meu Deus, sem tudo isso seria possível implantar ali a democracia? O presidente Bush, no melhor estilo missionário, tomou para si o (pesado, diga-se de passagem) fardo de mostrar a esses países a luz – ao menos a do mais moderno armamento bélico!

É digno de nota que toda essa movimentação deve estar a afastar dos países da região a ideia de tornarem-se efectivamente súbditos da democracia, ideia à qual, aliás, já não são, por natureza, muito afeitos, o que, ao contrário do que quer a esquerda, é óptimo para o Estados Unidos, pois nem sempre é fácil dominar um país democrático.

Como modelo à frase acima convém lembrar que países democráticos e cristãos podem igualmente produzir terrorismo, haja vista Espanha e Irlanda, esta última tendo-se fatigado provavelmente por não poder competir em requinte com os irmãos muçulmanos; ficou, se quiserem, pequena, anacrónica, e retirou-se do cenário antes que fosse completamente ridicularizada.

Ultimamente, a comunicação social do mundo inteiro não se cansa de mostrar infinitos números atestando o índice de reprovação do governo Bush, sempre em ascensão. Os contrários ao regime regozijam-se com essas estatísticas, que seriam, para eles, a comprovação cabal de que a guerra foi e é um erro. No entanto, ainda assim, fazendo ouvidos moucos a tudo e a todos, as sacrossantas estatísticas aí incluídas, Bush vai enviar 20.000 novos homens ao Iraque. Pois, a meu modesto ver, essa é a prova irrefutável de que sua estratégia está a funcionar brilhantemente! E é fantástico! Ele arrisca, assim, tudo o que tem para arriscar – o apoio de seus companheiros, o prestígio que lhe traria e à sua família um final feliz e triunfante da Presidência da República do País Mais Importante do Mundo Parte II, a economia interna, as relações exteriores dos Estados Unidos com outros países do Oriente Médio e também de alguns deles entre si, a estabilidade do Partido Republicano no parlamento – enfim, não sobrará nada, nada, nada. Antes, tudo vale para continuar com a devastação do Iraque.

Na verdade, Bush está tão a vontade com seus resultados que tem ameaçado países analogamente não-democráticos, de cultura adversa à ocidental e com um grande potencial, digamos assim, raivoso, como é o caso da Síria, do Irão e da Coreia. Em outras palavras, é a expansão em larguíssima escala do jeitinho Bush de ser.

Precisamos de demonstrações maiores?

Claro, isso não lhe elimina em nada a cara de bronco, o andar de gorila e as frases de “efeito-contrário”, para não mencionar o sorriso amarelo, apesar de que o do Blair é ainda melhor. Entretanto, não podemos nos deixar levar por esses detalhes, que são, no fim das contas, somente aparências. A verdade por trás deles é que há algo de muito bem arquitectado nessas acções – tão bem, que é até difícil acreditar que Bush esteja a fazer tudo isso SÓ por causa de dinheiro. Mesmo porque, deve haver razões que a nossa razão, nunca suficientemente penetrante no que tange à política mundial, desconhece.

 

PS1: o leitor mais atento dirá: “bem, mas eu não acredito que o atentado de 11 de Setembro tenha sido perpetrado pelos Estados Unidos”. Minha resposta a isso é, portanto, uma pergunta: a ter em vista os remédios aplicados e seus efeitos, será que faz alguma diferença?

 

PS2: uma das fantasias mais engraçadas no baile da nossa ingenuidade é acreditar que Bush estaria “sem interlocutores”. Penso que sua solidão será bem mais interna que externa. Pergunto-me: que coisas este homem teria para dizer a si mesmo? Afinal, não é a quantidade de algarismos bancários que torna alguém interessante.

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