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Discurso de Formatura

17.3.2012

Caros Coordenador, Docentes, Colegas de turma: bom dia!

 

Sim, ótimo dia, pelo qual ansiávamos todos, ávidos por nos diplomar como filósofos após esses três anos de intensos e sempre atribulados estudos, tratando de encaixar o saber e o amor pela Filosofia em meio a tantas aulas para dar, outras para receber, filhos, companheiros, contas para pagar, chefes a quem atender, funcionários a quem orientar, movimentos com e sem sentido que permeiam a nossa vida ora com nossa anuência, ora sem.

 

Mas não só a alegria de ter atingido esse suado objetivo vem dar as caras, aqui. Junto com ela, também comparece a tristeza da despedida da vida colegial, da rotina de estudo que aprendemos aqui no Claretiano, do contato constante com os colegas e professores aos quais nos afeiçoamos - e que, por isso mesmo, tentaremos levar para a vida extra-acadêmica. Uma coisa é certa: é bom ser estudante! É bom dedicar-se ao saber! Talvez especialmente bom para nós que escolhemos a carreira de Filosofia, certamente muito para além da recente "reabertura" que lhe foi feita pelo governo, e que deverá oferecer aí alguns empregos para nós, recém-formados. Mais importante ainda que os empregos, porém, é ter um panorama mais amplo do que essa reabertura significa, para que possamos fazer jus ao momento histórico pelo qual estamos passando e, através dessa conscientização, nos interessemos em agarrar com as mãos a parte da responsabilidade que nos cabe.

 

O golpe militar de 1964 teve por intuito interromper um processo de nacionalização do Brasil, isto é, um processo em que o país se voltava para si mesmo, saindo da situação "existencial" de colônia e passando a se organizar em torno dos interesses que poderiam lhe dar estatuto pleno de nação. No começo do século XX até 1930 surgem os primeiros autores que tentam dar forma a esse plano, como Gilberto Freyre, Oliveira Vianna, Manoel Bomfim, Sergio Buarque de Hollanda e em 1930 começa a haver sua concretização política com Getúlio Vargas. Outros autores se interessam pelo tema e trazem seus contributos que vão fundamentar a "praxis brasiliensis", como Caio Prado Júnior e Celso Furtado. Note-se que a discussão no mundo se dava em torno das questões do marxismo como alternativa à situação colonialista/liberacionista, e muitas independências se alinharam, alguns anos depois, ao marxismo nesta esperança. Na América Latina o peso da discussão marxista foi também sempre grande, e igualmente no Brasil, embora não tenha nunca conseguido atingir o grau de coesão que lhe poderia conferir uma maior amplitude na discussão. Mas mesmo o grau conseguido foi suficientemente aterrorador para as forças dominantes, principalmente por causa do exemplo cubano, para que estas decidissem dar cabo ao projeto de nação como um todo: neste momento, encomendou-se uma ditadura controlada (as únicas permitidas pela comunidade internacional) e o Brasil passou a gozar de novo estatuto: o de neo-colônia.

 

O que isto quer dizer na prática é que passamos a produzir o que os países do eixo central querem, como, quando e quanto querem. Desta forma, fatiando o mundo num engendramento muito bem planejado - pois a intervenção veio escala mundial -, ao Brasil coube o que hoje, 50 anos depois, claramente se visualiza como uma produção primário-exportadora, sem investimentos na indústria, na tecnologia e sem um pensamento desenvolvimentista embasado, pois não temos educação para isso.

 

Dentro deste panorama, fica evidente que abolir a Filosofia das escolas foi uma das principais ações do golpe militar. O que precisamos fazer é que o retorno da Filosofia seja um movimento igualmente contundente. Contamos ainda com algumas peculiaridades: não há diretrizes claras sobre o que ensinar, exatamente. Dispomos de muito pouco tempo - uma aula de 45 minutos por semana. E vivemos numa era em que o coletivo deixou de existir, o que tentamos consertar a partir das redes sociais. Como vamos utilizar todas essas características em prol de um afazer filosófico concreto? Nossos estudos acabaram por aqui? Como faremos para que a Filosofia não seja apenas mais um peso na carga horária do aluno que já vem tão "desgastado" para essa escola que cumpre poucos sentidos em sua vida, excetuando-se, talvez, o social?

 

Não seria papel da Filosofia e dos filósofos, por exemplo, ajudar a reformar o ensino, com base no conhecimento do nosso caminho histórico até aqui, vislumbrando talvez um destino histórico diferente e mais saudável a partir daqui? 

 

Mas, se assim for, como complementar nossa formação para dar conta desta missão tão importante, tão urgente, tão necessária, tão própria de cada filósofo que se forma aqui hoje?

 

Em que nossa escola pode contribuir? Qual o papel do Claretiano nesse destino conjunto? 

 

Enfim, são muitas as perguntas que ficam, como não podia deixar de ser a uma classe de Filosofia. Não somos as Exatas, em que as equações costumam se fechar e esse fechamento traz um quentinho ao coração por todos nós almejado. Nosso quentinho é outro: é o de saber-nos, sempre, aptos a perguntar; inquietos, mas nem por isso ansiosos, pois nos atemos ao mestre Sócrates para que nosso passo seja firme ainda que em solo flácido: "Só sei que nada sei."


Boa caminhada a todos e muito obrigada pela companhia.

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